segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Cinco guerrilheiros do Araguaia estariam vivos



Euler de França Belém
Cinco guerrilheiros do Araguaia estariam vivos
O Jornal Opção publicou, há alguns anos, reportagem na qual dizia que pelo menos um militante do Partido Comunista do Brasil que lutou na Guerrilha do Araguaia (1972-1975) poderia estar vivo, possivelmente com nome falso (há alguns anos, apareceu um ex-guerrilheiro, Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia, que era dado como “desaparecido”. Depois, surgiu outro “desaparecido”). O guerrilheiro mais citado como sobrevivente é Hélio Luiz Navarro, o Edinho, filho de um oficial da Marinha. Quando o jornal publicou a informação, sugerindo que Edinho seria dono de um garimpo, possivelmente em Mato Grosso, Suzana Lisboa, então na Comissão de Mortos e Desaparecidos, ligou para a redação e conversou comigo. Frisou que a mãe de Edinho havia ficado “irritada” com a reportagem. Noutras palavras, para a mãe e para Suzana Lisboa, o guerrilheiro estava morto e enterrado na região do Araguaia, entre Tocantins e Pará. Entretanto, na segunda-feira, 17, Evandro Éboli, de “O Globo”, na reportagem “Governo procura 5 guerrilheiros ‘mortos-vivos’”, conta que cinco deles podem ter sido poupados pelos militares. Além de Hélio Luiz Navarro, o repórter lista Luís René da Silveira, Antônio de Pádua Costa, Áurea Elisa Valadão e Dinalva Conceição Teixeira, mais conhecida como Dina (tida como grande atiradora e mulher de grande coragem). O Jornal Opção publicou em primeira mão uma fotografia de Piauí vivo, tendo ao lado o sargento Santa Cruz, tido como uma espécie de Curió 2, hoje residente no Pará. Mais tarde brigado com Curió, Santa Cruz funcionava como seu braço direito ao massacrar guerrilheiros (consta que era até mais cruel). A reportagem do Jornal Opção, junto com a fotografia, merece citação no livro do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura. Porque, além do ineditismo da foto, o nome de Santa Cruz, até ser citado pelo jornal, não havia sido mencionado em livros e reportagens.

A história volta à tona porque, atendendo ofício do Ministério da Defesa e da Advocacia da União, a juíza federal Solange Salgado “determinou à Polícia Federal que tente localizar” os cinco ex-guerrilheiros. A cúpula da PF frisa que não faz este tipo de investigação, que seria “administrativa”. “O Globo” assinala que “eles teriam sido ‘poupados’ pelos militares”. O ofício do Ministério da Defesa, dirigido por Nelson Jobim, repete o que a própria esquerda, ao menos nos bastidores, vem dizendo a respeito de alguns de seus integrantes que atuaram na guerrilha: “Há pelo menos duas décadas que aparecem informes de militares, de militantes de direitos humanos e de moradores e camponeses da região do Araguaia de que alguns guerrilheiros presos teriam sido poupados das execuções, recebido novas identidades e desaparecido vivos nas cidades. São conhecidos como mortos-vivos”.

Alguns familiares de desaparecidos, ouvidos por “O Globo”, atacaram a iniciativa do Ministério da Defesa como “deboche” e “desrespeito”. Curiosamente, são os mesmos que, desde 1975, pedem investigações sistemáticas sobre os desaparecidos. Querem mais atacar a ditadura e receber indenizações? É provável que não. Talvez queiram evitar mais dores. Muitos são pessoas idosas. Mas fica-se com a impressão de que não querem que o governo investigue de fato, se o resultado não for aquele esperado. Sobretudo, parece que não querem informações sobre possíveis acordos dos parentes com militares, nada atípicos em guerrilhas.

Evandro Éboli diz, baseado num dos depoimentos reproduzidos do material apurado pelo Ministério da Defesa, que “Dinalva, a Dina, foi vista no Rio [de Janeiro] por um ex-guia do Exército do Exército durante a visita do papa João Paulo 2°, em 1980. Hélio Navarro, o Edinho, teria sido incluído no inventário da família e seu nome aparecido em declarações de Imposto de Renda no início dos anos 2000. Ele teria trabalhado por cerca de 30 anos no marketing de uma multinacional francesa”. A versão contesta a outra, de que Edinho teria um garimpo em Mato Grosso.

Um trecho da reportagem merece discussão. Escreve Evandro Éboli: “Também foram levadas em conta declarações do ex-ministro Jarbas Passarinho, que teria empregado no Ministério da Educação, em 1974, dois guerrilheiros, que teriam usado identidades falsas”. O Jornal Opção apurou que dois dos guerrilheiros acolhidos por Passarinho, com recomendação especial do general Antônio Bandeira, um dos comandantes dos que combateram a Guerrilha do Araguaia, são de Goiás. Um deles, jornalista, “ganhou” um emprego em Brasília, onde reside até hoje (mais do que dedo-duro, trata-se de um “arrependido”; por medo e para sobreviver, abandonou a esquerda). Ele não teria participado da Guerrilha do Araguaia, pelo menos não diretamente. O outro guerrilheiro “ganhou” um emprego na Universidade Federal de Goiás (UFG). Também não participou da luta organizada pelo PC do B, está aposentado e permanece de esquerda. Mas há registro de outros guerrilheiros, pelo menos dois, que, arrependidos do Araguaia, foram “premiados” com empregos públicos no Ministério da Educação. Jarbas Passarinho e Antônio Bandeira atuaram juntos. O segundo prendia e o primeiro empregava.

Os cinco “sobreviventes” do PC do B

O governo federal relata, segundo “O Globo”, “que Hélio Navarro teria sido ferido e preso ao lado de Luís Renê da Silveira (Duda) e Antônio de Pádua Costa (Piauí). Os três teriam ficado presos um mês em uma base em Xambioá (TO). Edinho é filho de um oficial da Marinha. Diz o documento que os militares ‘teriam decidido abrir uma exceção e negociaram um acordo para que desaparecesse, inclusive da mãe’ [que mora ou morava no Rio de Janeiro]. Edinho teria negociado solução semelhante para Duda e Piauí”. O fato de ser filho de um oficial da Marinha, se a história for verdadeira, pesou favoravelmente.

O jornalista Evandro Éboli diz que a documentação informa que “Áurea Elisa Valadão foi presa com um guerrilheiro conhecido como Batista. Ambos teriam sido embarcados em um avião, pilotado por um oficial da FAB, sobrinho de Áurea. Sobre Dinalva, ‘ainda que todos os informes dos militares afirmem que a teriam executado’, corre na região a lenda de que estaria viva. Geóloga, ela teria sido poupada pelo major Curió em troca da indicação do garimpo de Serra Pelada, segundo o ofício do Ministério da Defesa. ‘Há uma moradora em Serra Pelada que é apresentada como suposta filha da Dina. Um ex-militar a teria retirado a região. Precisa ser esclarecido’”. Sobre Dina, uma atiradora de elite, como Osvaldão, pesa “lendas”. Uma delas é de que teria ficado grávida de um militar do Exército. Militares contaram que foi morta, e agiu com valentia, sem pedir para viver.

O Grupo de Trabalho Tocantins, coordenado por Vilson Marcelo Vedana, consultor-jurídico do Ministério da Defesa, “assina”, segundo “O Globo”, “o pedido de buscas”. Apesar da grita de alguns parentes, e da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, as investigações são limpas e merecem crédito. Fundamentalmente, não são taxativas ou conclusivas, tanto que o Ministério da Defesa recorreu à Justiça para que a Polícia Federal obtivesse dados que as comprovassem ou contestassem. Por que exatamente alguns não querem que a investigações continuem? Temem que alguma coisa constrangedora macule a imagem de “bons-moços” dos guerrilheiros? Maria do Rosário, talvez por sua paixão pelo discurso de esquerda, parece não perceber que o fórum ideal para dirimir certas dúvidas é a Justiça. O Ministério da Defesa, agindo de modo democrático, acima da expectativa da ministra, seguiu o rito da democracia. O outro fórum é o da história. Os historiadores precisam de mais dados para compor a história guerrilha. 

Se o governo federal abrir todas as caixas pretas, não apenas as dos militares, será possível contar a história da Guerrilha do Araguaia de modo mais independente e, assim, consistente. Por enquanto, a história da Guerrilha do Araguaia tem dona – a esquerda. Não pode ser assim. A história é de todos e os militares, ao contrário do que prega certa historiografia, empobrecedora, não são vilões. São personagens históricos que devem ser avaliados com equilíbrio, inclusive situando quais projetos políticos e estratégicos estavam em jogo (militares e militantes queriam a hegemonia de duas ditaduras – os primeiros, a manutenção do regime civil-militar, e os segundos, a implantação da ditadura do proletariado, quer dizer, do partido comunista). Ademais, aqueles que possivelmente negociaram para sobreviver devem ser tratados como seres humanos fragilizados, não como seres ignóbeis.

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