O
DESCONHECIDO ANDREAZZA
Por Carlos Chagas
(Prefácio
do jornalista Carlos Chagas para o livro sobre o ministro Mário David
Andreazza, elaborado e editado pela família.)
Sem ser engenheiro, por haver optado pela Escola Militar das Agulhas Negras, mesmo depois de aprovado no vestibular para a Faculdade de Engenharia do Rio de Janeiro, Mário David Andreazza inscreve-se na relação dos maiores realizadores de obras públicas que o Brasil já teve, em toda a nossa História.
Sem ser engenheiro, por haver optado pela Escola Militar das Agulhas Negras, mesmo depois de aprovado no vestibular para a Faculdade de Engenharia do Rio de Janeiro, Mário David Andreazza inscreve-se na relação dos maiores realizadores de obras públicas que o Brasil já teve, em toda a nossa História.
Importa
pouco, neste prefácio, falar da ação do ministro dos Transportes e, depois, do
ministro do Interior, nos anos em que o país mais se desenvolveu
materialmente. Nos capítulos seguintes, o
leitor encontrará provas e evidências das centenas de realizações
responsáveis pela nossa inclusão no rol das nações que romperam o
desenvolvimento atormentado da primeira metade do século XX para chegar à
afirmação real de nossas potencialidades.
Da multiplicação da malha rodoviária que chegou ao asfaltamento da Belém-Brasília à implantação da Transamazônica, da Cuiabá-Santarém aos milhares de quilômetros retirados das pranchetas para o solo fértil do Sul e do Sudeste, essas foram apenas uma parcela do espírito criador do ministro. Reúnem-se à ponte Rio-Niterói e à recuperação das ferrovias desmanteladas nos anos anteriores à sua gestão. Completam a mutação verificada nos portos e a solidificação da indústria naval, com a batalha naqueles idos vencida contra a exploração do transporte marítimo pelos abomináveis navios de terceira bandeira, que estrangulavam nossa economia. As hidrovias romperam território à dentro através de um sadio nacionalismo gerado nos tempos em que, como instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, depois da Escola Superior de Guerra, comprovou na prática a teoria do apoio do Brasil nas próprias forças, antes que o deletério neoliberalismo nos envolvese, como ainda hoje acontece.
Andreazza era nacionalista de verdade, sem necessidade de ser radical, mas é hora de nos afastarmos de um reconhecimento óbvio de sua capacidade administrativa e gerencial para mergulhamos no ser humano, razão destas linhas.
Ao contrário das primeiras impressões determinadas por seu otimismo e sua capacidade de gestor de obras, é preciso abrir espaço para alguém atormentado. Sua imagem de realizador conviveu, no íntimo, com a desconfiança permanente de chegar a bom termo em cada uma de suas iniciativas. Transmitia aos auxiliares aquela caraterística dos grandes comandantes, mas, na intimidade, duvidava. Junto aos amigos mais chegados, buscava apoio, na véspera, para os passos a ser dados no dia seguinte. Apesar da certeza de estar no caminho correto, sofria diante das incompreensões previstas frente às barreiras que romperia com consciência.
Nenhum documento exprime com mais densidade esse sofrimento permanente, assim como sua determinação inflexível de seguir adiante, do que a carta reservada enviada ao secretário-geral do ministério dos Transportes, logo depois de empossados os dois. Desconhece-se, até hoje, a reação do fidelíssimo coronel Rodrigo Ajace, diante de parágrafos como:
“(...) Administração é sobretudo coragem. Coragem de arriscar calculadamente e ficar indiferente aos medíocres enfurecidos que não perdoam o sucesso de ninguém. Até de ladrão seremos chamados.”
E depois:
Da multiplicação da malha rodoviária que chegou ao asfaltamento da Belém-Brasília à implantação da Transamazônica, da Cuiabá-Santarém aos milhares de quilômetros retirados das pranchetas para o solo fértil do Sul e do Sudeste, essas foram apenas uma parcela do espírito criador do ministro. Reúnem-se à ponte Rio-Niterói e à recuperação das ferrovias desmanteladas nos anos anteriores à sua gestão. Completam a mutação verificada nos portos e a solidificação da indústria naval, com a batalha naqueles idos vencida contra a exploração do transporte marítimo pelos abomináveis navios de terceira bandeira, que estrangulavam nossa economia. As hidrovias romperam território à dentro através de um sadio nacionalismo gerado nos tempos em que, como instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, depois da Escola Superior de Guerra, comprovou na prática a teoria do apoio do Brasil nas próprias forças, antes que o deletério neoliberalismo nos envolvese, como ainda hoje acontece.
Andreazza era nacionalista de verdade, sem necessidade de ser radical, mas é hora de nos afastarmos de um reconhecimento óbvio de sua capacidade administrativa e gerencial para mergulhamos no ser humano, razão destas linhas.
Ao contrário das primeiras impressões determinadas por seu otimismo e sua capacidade de gestor de obras, é preciso abrir espaço para alguém atormentado. Sua imagem de realizador conviveu, no íntimo, com a desconfiança permanente de chegar a bom termo em cada uma de suas iniciativas. Transmitia aos auxiliares aquela caraterística dos grandes comandantes, mas, na intimidade, duvidava. Junto aos amigos mais chegados, buscava apoio, na véspera, para os passos a ser dados no dia seguinte. Apesar da certeza de estar no caminho correto, sofria diante das incompreensões previstas frente às barreiras que romperia com consciência.
Nenhum documento exprime com mais densidade esse sofrimento permanente, assim como sua determinação inflexível de seguir adiante, do que a carta reservada enviada ao secretário-geral do ministério dos Transportes, logo depois de empossados os dois. Desconhece-se, até hoje, a reação do fidelíssimo coronel Rodrigo Ajace, diante de parágrafos como:
“(...) Administração é sobretudo coragem. Coragem de arriscar calculadamente e ficar indiferente aos medíocres enfurecidos que não perdoam o sucesso de ninguém. Até de ladrão seremos chamados.”
E depois:
“Sofreremos
muitas restrições, em particular de nossos colegas, e mais ainda dos generais
que verão sempre em nós os meninos que há pouco se perfilavam e faziam
continência. Poderão se transformar nos nossos maiores adversários. (...) Para
começar, temos que passar por malucos. (...) Engolir sapos e trabalhar.
Terminaremos nos impondo. Temos capacidade e imaginação. Lutaremos
contra a vaidade. Sei que é difícil, mas venceremos a tentação, pois
a vaidade gera ódio e sentimentos mesquinhos.”
Tudo isso foi escrito como preâmbulo para anunciar as primeiras metas: “a duplicação da via Dutra, os estudos de viabilização da ponte Rio-Niterói, a navegação em decadência, a vergonha da Rede Ferroviária, o sistema portuário em decadência, o déficit cada vez maior na questão dos fretes marítimos, a desmoralização do DNER”...
Havia um universo a construir mas o perfil começava a ser desenhado a partir das dificuldades a enfrentar. E elas surgiram nas primeiras semanas de sua atuação. Companheiros de farda, em especial generais, mas montes de coronéis, seus colegas, viram-se tomados por aquele sentimento por ele detectado anteriormente, da inveja. Porque alguém como eles, ou até, hierarquicamente inferior, ousava investir contra imutáveis moinhos de vento, sem prestar atenção a estrelas e continências?
Juntaram-se os contrários, desde os primeiros meses. Os adversários do governo Costa e Silva, sem coragem para atingir o velho marechal, fizeram de Andreazza o alvo imediato. Exatamente como ele previra na carta ao coronel Ajace. Carlos Lacerda abriu a fila, sugerindo, mas sem afirmar, que aquele conjunto de iniciativas anunciadas por Andreazza encobria a corrupção. No fundo, elas contrariavam interesses internos e externos, estes das multinacionais, às quais muita gente do governo Castello Branco servia.
Se é verdade que o MDB do dr. Ulysses negou-se a integrar a corrente de desmoralização do ministério dos Transportes, no reverso da medalha partiram de civis e militares ressentidos com os rumos do movimento de 1964 os primeiros petardos contra o próprio movimento que integraram. Veio desses ultrapassados, entre eles os generais Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, sem perder de vista o ex-ministro Roberto Campos, então no ostracismo, a catarata de meias suposições e incompletas ilações destinadas, menos do que atingir Costa e Silva e Andreazza, a interromper o fluxo de uma política nacionalista e contrária aos interesses externos que a retomada do desenvolvimento brasileiro obstruiria. Com a óbvia colaboração da parte mais forte da mídia, que até hoje o invencível Hélio Fernandes chama de “amiga e amestrada”.
Mesmo assim, com o apoio de Costa e Silva, resultados começaram a aparecer. Como a amargura encoberta de Andreazza tornava-se visível apenas para seus amigos mais chegados. Houve um momento em que a aliança entre ressentidos e interesseiros chegou a limites extremos, em veladas acusações até sobre a honestidade do ministro. Ninguém assumia mas muitos se aproveitavam para denegri-lo, a ponto dele ter procurado o então chefe do SNI, general Garrastazu Médici, pedindo-lhe para indicar um oficial de informações capaz de ocupar a chefia de seu gabinete. O indicado foi o coronel Rocha Maia, de toda confiança, que nunca mais deixou Andreazza, aval de sua honestidade junto à comunidade de informações. Nem tudo eram obras e realizações. Havia mil obstáculos laterais a enfrentar. Um deles, o da repressão, mesmo nos tempos em que Costa e Silva procurava neutralizar os seus radicais. Andreazza sofria ao saber que abusos começavam a acontecer com mais intensidade, bem antes da decretação do AI-5. Aconteciam também por provocação da esquerda furibunda, aquela que trocava as passeatas por assaltos a bancos e ações violentas.
Um querido amigo, jornalista de qualidades profundas, Washington Novaes, foi de repente preso, acusado de perigoso agente marxista. Busquei o auxílio de Andreazza, que por sua vez descobriu estar o companheiro nas masmorras da Polícia Federal, no Rio. Desgastou-se o ministro, ao se responsabilizar pela liberdade de Washington, mas, dias depois, disse-me, desabafando: “o clima esquenta cada vez mais. Se pegarem você, meu amigo de fé, creio que não poderei fazer nada...”
Quanto mais o tempo passava, mais se exacerbava a radicalização, até o dia em que o Congresso, no exercício de suas prerrogativas, negou licença para que fosse processado pelos ministros militares o jovem deputado Márcio Moreira Alves. Num arroubo de inconsequência, ele discursara apelando para as mocinhas casadoiras não dançarem com os jovens cadetes e tenentes, nos bailes da Independência, demonstrando seu repúdio à ditadura. Um pronunciamento bobo, que nem mereceu réplica dos líderes do governo, mas que no dia seguinte estava distribuído por todos os quartéis do país, com o preâmbulo de “veja como o Congresso trata nossas gloriosas Forças Armadas”.
Um dia depois, Costa e Silva não resistiu e, em vez de aceitar a solução do vice-presidente Pedro Aleixo, pela decretação do Estado de Sítio, cedeu e assinou o Ato Institucional no. 5, o mais abjeto instrumento de ditadura do século. Como Editor de Política de “O Globo”, tentei falar com Andreazza, e foi a única vez, em tantos anos, antes e depois, que ele não atendeu o telefone. Estava arrasado, soube depois.
Os meses correram, o país entregue à sanha até de cabos corneteiros, refugiando-se o ministro dos Transportes na intensificação dos planos e metas em andamento. A tempestade começava a amainar e o velho presidente decidiu fazer, depois, o que não fizera antes: reagir e reconstitucionalizar o país, revogando o AI-5. Valeu-se do espírito democrático do vice-presidente Pedro Aleixo. Foi quando convidou-me para Secretário de Imprensa e porta-voz, encarregado de transmitir com cautela as novas propostas.
Deixei o palácio das Laranjeiras, onde estava o presidente, e antes de chegar em casa para discutir o convite com minha mulher, dirigi-me ao apartamento de Andreazza, em Copacabana. Qual sua opinião? Valeria à pena aceitar, passando a integrar um governo de exceção, mesmo sob o segredo de que seria para ajudar a acabar com a ditadura?
Recebi palavras de estímulo, ainda que um alerta óbvio: “não pense que vai ser fácil. Muito menos que seus amigos mais chegados vão entender. Não importa, benvindo ao barco.”
Fácil não foi, porque depois de alguns dias transmitindo notícias sobre a abertura política, começaram as pressões dos radicais. O ministro da Justiça, Gama e Silva, um jurila (misto de jurista e de gorila) comentou “que o dr. Chagas estava distribuindo um noticiário infame a respeito do futuro da Revolução”. Como dispunha do apoio do presidente da República, dei de ombros e segui em frente, até satisfeito por identificar os adversários. Todos os dias, no início e no fim do expediente, no palácio do Planalto, recebia de Costa e Silva indagações a respeito de como a imprensa acompanhava a evolução dos acontecimentos.
De repente, a uma semana da reabertura do Congresso, então posto em recesso, do envio da emenda constitucional extinguindo o AI-5 e da constitucionalização do regime, sobrevem drama digno de ser contado por Shakespeare: o presidente é acometido por um derrame cerebral, fruto do conflito entre o seu consciente, disposto a enfrentar resistências e não passar à História como ditador, e o inconsciente de um general que chegara à chefia do governo por força de um movimento de força. (Continua amanhã)
Tudo isso foi escrito como preâmbulo para anunciar as primeiras metas: “a duplicação da via Dutra, os estudos de viabilização da ponte Rio-Niterói, a navegação em decadência, a vergonha da Rede Ferroviária, o sistema portuário em decadência, o déficit cada vez maior na questão dos fretes marítimos, a desmoralização do DNER”...
Havia um universo a construir mas o perfil começava a ser desenhado a partir das dificuldades a enfrentar. E elas surgiram nas primeiras semanas de sua atuação. Companheiros de farda, em especial generais, mas montes de coronéis, seus colegas, viram-se tomados por aquele sentimento por ele detectado anteriormente, da inveja. Porque alguém como eles, ou até, hierarquicamente inferior, ousava investir contra imutáveis moinhos de vento, sem prestar atenção a estrelas e continências?
Juntaram-se os contrários, desde os primeiros meses. Os adversários do governo Costa e Silva, sem coragem para atingir o velho marechal, fizeram de Andreazza o alvo imediato. Exatamente como ele previra na carta ao coronel Ajace. Carlos Lacerda abriu a fila, sugerindo, mas sem afirmar, que aquele conjunto de iniciativas anunciadas por Andreazza encobria a corrupção. No fundo, elas contrariavam interesses internos e externos, estes das multinacionais, às quais muita gente do governo Castello Branco servia.
Se é verdade que o MDB do dr. Ulysses negou-se a integrar a corrente de desmoralização do ministério dos Transportes, no reverso da medalha partiram de civis e militares ressentidos com os rumos do movimento de 1964 os primeiros petardos contra o próprio movimento que integraram. Veio desses ultrapassados, entre eles os generais Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, sem perder de vista o ex-ministro Roberto Campos, então no ostracismo, a catarata de meias suposições e incompletas ilações destinadas, menos do que atingir Costa e Silva e Andreazza, a interromper o fluxo de uma política nacionalista e contrária aos interesses externos que a retomada do desenvolvimento brasileiro obstruiria. Com a óbvia colaboração da parte mais forte da mídia, que até hoje o invencível Hélio Fernandes chama de “amiga e amestrada”.
Mesmo assim, com o apoio de Costa e Silva, resultados começaram a aparecer. Como a amargura encoberta de Andreazza tornava-se visível apenas para seus amigos mais chegados. Houve um momento em que a aliança entre ressentidos e interesseiros chegou a limites extremos, em veladas acusações até sobre a honestidade do ministro. Ninguém assumia mas muitos se aproveitavam para denegri-lo, a ponto dele ter procurado o então chefe do SNI, general Garrastazu Médici, pedindo-lhe para indicar um oficial de informações capaz de ocupar a chefia de seu gabinete. O indicado foi o coronel Rocha Maia, de toda confiança, que nunca mais deixou Andreazza, aval de sua honestidade junto à comunidade de informações. Nem tudo eram obras e realizações. Havia mil obstáculos laterais a enfrentar. Um deles, o da repressão, mesmo nos tempos em que Costa e Silva procurava neutralizar os seus radicais. Andreazza sofria ao saber que abusos começavam a acontecer com mais intensidade, bem antes da decretação do AI-5. Aconteciam também por provocação da esquerda furibunda, aquela que trocava as passeatas por assaltos a bancos e ações violentas.
Um querido amigo, jornalista de qualidades profundas, Washington Novaes, foi de repente preso, acusado de perigoso agente marxista. Busquei o auxílio de Andreazza, que por sua vez descobriu estar o companheiro nas masmorras da Polícia Federal, no Rio. Desgastou-se o ministro, ao se responsabilizar pela liberdade de Washington, mas, dias depois, disse-me, desabafando: “o clima esquenta cada vez mais. Se pegarem você, meu amigo de fé, creio que não poderei fazer nada...”
Quanto mais o tempo passava, mais se exacerbava a radicalização, até o dia em que o Congresso, no exercício de suas prerrogativas, negou licença para que fosse processado pelos ministros militares o jovem deputado Márcio Moreira Alves. Num arroubo de inconsequência, ele discursara apelando para as mocinhas casadoiras não dançarem com os jovens cadetes e tenentes, nos bailes da Independência, demonstrando seu repúdio à ditadura. Um pronunciamento bobo, que nem mereceu réplica dos líderes do governo, mas que no dia seguinte estava distribuído por todos os quartéis do país, com o preâmbulo de “veja como o Congresso trata nossas gloriosas Forças Armadas”.
Um dia depois, Costa e Silva não resistiu e, em vez de aceitar a solução do vice-presidente Pedro Aleixo, pela decretação do Estado de Sítio, cedeu e assinou o Ato Institucional no. 5, o mais abjeto instrumento de ditadura do século. Como Editor de Política de “O Globo”, tentei falar com Andreazza, e foi a única vez, em tantos anos, antes e depois, que ele não atendeu o telefone. Estava arrasado, soube depois.
Os meses correram, o país entregue à sanha até de cabos corneteiros, refugiando-se o ministro dos Transportes na intensificação dos planos e metas em andamento. A tempestade começava a amainar e o velho presidente decidiu fazer, depois, o que não fizera antes: reagir e reconstitucionalizar o país, revogando o AI-5. Valeu-se do espírito democrático do vice-presidente Pedro Aleixo. Foi quando convidou-me para Secretário de Imprensa e porta-voz, encarregado de transmitir com cautela as novas propostas.
Deixei o palácio das Laranjeiras, onde estava o presidente, e antes de chegar em casa para discutir o convite com minha mulher, dirigi-me ao apartamento de Andreazza, em Copacabana. Qual sua opinião? Valeria à pena aceitar, passando a integrar um governo de exceção, mesmo sob o segredo de que seria para ajudar a acabar com a ditadura?
Recebi palavras de estímulo, ainda que um alerta óbvio: “não pense que vai ser fácil. Muito menos que seus amigos mais chegados vão entender. Não importa, benvindo ao barco.”
Fácil não foi, porque depois de alguns dias transmitindo notícias sobre a abertura política, começaram as pressões dos radicais. O ministro da Justiça, Gama e Silva, um jurila (misto de jurista e de gorila) comentou “que o dr. Chagas estava distribuindo um noticiário infame a respeito do futuro da Revolução”. Como dispunha do apoio do presidente da República, dei de ombros e segui em frente, até satisfeito por identificar os adversários. Todos os dias, no início e no fim do expediente, no palácio do Planalto, recebia de Costa e Silva indagações a respeito de como a imprensa acompanhava a evolução dos acontecimentos.
De repente, a uma semana da reabertura do Congresso, então posto em recesso, do envio da emenda constitucional extinguindo o AI-5 e da constitucionalização do regime, sobrevem drama digno de ser contado por Shakespeare: o presidente é acometido por um derrame cerebral, fruto do conflito entre o seu consciente, disposto a enfrentar resistências e não passar à História como ditador, e o inconsciente de um general que chegara à chefia do governo por força de um movimento de força. (Continua amanhã)
Naqueles
dias em que ainda se ignorava a extensão da doença do
presidente, Andreazza passava a maior parte do dia no palácio Laranjeiras,
onde Costa e Silva permanecia, preso ao leito, sem voz e sem movimentos. Era a
trombose, caracterizada por inteiro. Lá, pudemos conversar horas a
fio, sem muitas informações clínicas, mas aferrados ao princípio de que “o
presidente está doente, mas o cargo não está vago” – frase que ele repetia a
todo instante. Os três ministros militares haviam usurpado o poder, mandando
prender o vice-presidente Pedro Aleixo, para que não assumisse. Ousaram dizer
que assim agiam autorizados pelo velho e enfermo presidente, que de nada tomava
conhecimento.
A confusão, que era grande, tornou-se incontrolável quando a esquerda radical e furibunda fornece à direita condições de botar a pata em cima das instituições que sobravam. Sequestraram o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick. Sem know-how para situações como aquela, a Junta Militar atende as exigências dos sequestradores e até do governo de Washington, que era de salvar a vida de seu representante a qualquer custo.
Lembro-me de um domingo bem cedo, sete horas da manhã, haver levado jornalistas à casa de Andreazza, para que ele pudesse enfatizar a importância de se aguardar os derradeiros laudos médicos a respeito da possibilidade ou não de recuperação do presidente. A repórter Regina Coelho, da “Veja”, reproduziu a conversa e, dias depois, Andreazza era repreendido pela Junta Militar e pelos Altos Comandos. Nada de política, deveria cuidar apenas de estradas, sob pena de ser punido...
A crise desembocou em ferrenha luta pelo poder, surgindo o nome do general Garrastazu Médici para novo presidente. Dei a notícia a Andreazza que, emocionado, retrucou: “ele é um homem de bem, conseguirá botar ordem na confusão”.
E colocou, ainda que pela truculência, formando um governo com ministros de Costa e Silva e com ministros novos. Andreazza foi confirmado no ministério dos Transportes, como Delfim Netto na Fazenda e Jarbas Passarinho deslocado do Trabalho para a Educação. Retornei a O Globo, depois fui para a Manchete, mas continuava frequentando casa e gabinete de Andreazza, sempre um excepcional informante e analista do que se passava no governo. A seu pedido, a Manchete mandou-me percorrer toda a região por onde se implantava a Transamazônica. Foram quinze dias a bordo de um monomotor, descendo em cada campo de futebol em meio à floresta, entrevistando engenheiros, trabalhadores e, em especial, caboclos extasiados com aquelas máquinas diabólicas de cortar o verde.
Começaram para o ministro os anos da colheita, os anos dourados que nenhuma intriga conseguiu empanar. A Transamazônica foi inaugurada, a ponte Rio-Niterói também, além de a indústria naval se haver afirmado e muitas ferrovias, recuperadas. Era o tempo em que a economia funcionava bem, não havia desemprego, a ditadura, por ironia, era popular e um bem montado esquema de propaganda vendia a ilusão do milagre brasileiro.
Aproximava-se o término do mandato de Médici e a ebulição nas Forças Armadas voltava a níveis indescritíveis. Do que mais a imprensa especulava era sobre a possibilidade de o presidente ser sucedido, senão por um civil, ao menos por um anfíbio, ou seja, alguém de origem militar com garra e condições de imprimir um passo adiante naquele regime, de resto politicamente fechado e obscuro. Jornais dedicavam os espaços não censurados a ilações a respeito, surgindo dois nomes principais: Mário David Andreazza e Jarbas Passarinho.
Mero sonho de noite de verão, pois nem Médici pretendia arriscar e nem os Altos Comandos dispunham-se a ceder espaço. Tudo ficou claro quando, em conversa com o presidente, o ministro do Exército, general Orlando Geisel, resumiu tudo numa frase: “Eu não bato continência para coronel!” Coincidência ou não, o escolhido foi o irmão do ministro, general Ernesto Geisel. Médici desinteressou-se, a ponto de um de seus filhos haver comentado com o jornalista Carlos Castello Branco: “meu pai escolheu o sucessor como se escolhe uma bailarina num cabaré.” Bailarina foi um termo cortês...
O terceiro governo da Revolução, de Ernesto Geisel, foi cópia do primeiro, com o retorno ao poder dos integrantes dos tempos de Castelo Branco. Dispensaram-se os auxiliares de Costa e Silva e de Médici, até com certo rancor. Andreazza foi dos primeiros a limpar as gavetas. Estava desempregado, recebia apenas a aposentadoria de coronel do Exército e precisou ganhar o pão de cada dia. Imagine-se a frustração daqueles que anos antes o acusavam de haver enriquecido às custas de obras públicas. Foi para São Paulo, vender seguros. Quando nos encontrávamos, comentava sempre estar passando pela melhor fase de sua vida, podendo conviver com a família, acompanhar o desenvolvimento dos filhos e abandonar a sina de mestre de obras.
A confusão, que era grande, tornou-se incontrolável quando a esquerda radical e furibunda fornece à direita condições de botar a pata em cima das instituições que sobravam. Sequestraram o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick. Sem know-how para situações como aquela, a Junta Militar atende as exigências dos sequestradores e até do governo de Washington, que era de salvar a vida de seu representante a qualquer custo.
Lembro-me de um domingo bem cedo, sete horas da manhã, haver levado jornalistas à casa de Andreazza, para que ele pudesse enfatizar a importância de se aguardar os derradeiros laudos médicos a respeito da possibilidade ou não de recuperação do presidente. A repórter Regina Coelho, da “Veja”, reproduziu a conversa e, dias depois, Andreazza era repreendido pela Junta Militar e pelos Altos Comandos. Nada de política, deveria cuidar apenas de estradas, sob pena de ser punido...
A crise desembocou em ferrenha luta pelo poder, surgindo o nome do general Garrastazu Médici para novo presidente. Dei a notícia a Andreazza que, emocionado, retrucou: “ele é um homem de bem, conseguirá botar ordem na confusão”.
E colocou, ainda que pela truculência, formando um governo com ministros de Costa e Silva e com ministros novos. Andreazza foi confirmado no ministério dos Transportes, como Delfim Netto na Fazenda e Jarbas Passarinho deslocado do Trabalho para a Educação. Retornei a O Globo, depois fui para a Manchete, mas continuava frequentando casa e gabinete de Andreazza, sempre um excepcional informante e analista do que se passava no governo. A seu pedido, a Manchete mandou-me percorrer toda a região por onde se implantava a Transamazônica. Foram quinze dias a bordo de um monomotor, descendo em cada campo de futebol em meio à floresta, entrevistando engenheiros, trabalhadores e, em especial, caboclos extasiados com aquelas máquinas diabólicas de cortar o verde.
Começaram para o ministro os anos da colheita, os anos dourados que nenhuma intriga conseguiu empanar. A Transamazônica foi inaugurada, a ponte Rio-Niterói também, além de a indústria naval se haver afirmado e muitas ferrovias, recuperadas. Era o tempo em que a economia funcionava bem, não havia desemprego, a ditadura, por ironia, era popular e um bem montado esquema de propaganda vendia a ilusão do milagre brasileiro.
Aproximava-se o término do mandato de Médici e a ebulição nas Forças Armadas voltava a níveis indescritíveis. Do que mais a imprensa especulava era sobre a possibilidade de o presidente ser sucedido, senão por um civil, ao menos por um anfíbio, ou seja, alguém de origem militar com garra e condições de imprimir um passo adiante naquele regime, de resto politicamente fechado e obscuro. Jornais dedicavam os espaços não censurados a ilações a respeito, surgindo dois nomes principais: Mário David Andreazza e Jarbas Passarinho.
Mero sonho de noite de verão, pois nem Médici pretendia arriscar e nem os Altos Comandos dispunham-se a ceder espaço. Tudo ficou claro quando, em conversa com o presidente, o ministro do Exército, general Orlando Geisel, resumiu tudo numa frase: “Eu não bato continência para coronel!” Coincidência ou não, o escolhido foi o irmão do ministro, general Ernesto Geisel. Médici desinteressou-se, a ponto de um de seus filhos haver comentado com o jornalista Carlos Castello Branco: “meu pai escolheu o sucessor como se escolhe uma bailarina num cabaré.” Bailarina foi um termo cortês...
O terceiro governo da Revolução, de Ernesto Geisel, foi cópia do primeiro, com o retorno ao poder dos integrantes dos tempos de Castelo Branco. Dispensaram-se os auxiliares de Costa e Silva e de Médici, até com certo rancor. Andreazza foi dos primeiros a limpar as gavetas. Estava desempregado, recebia apenas a aposentadoria de coronel do Exército e precisou ganhar o pão de cada dia. Imagine-se a frustração daqueles que anos antes o acusavam de haver enriquecido às custas de obras públicas. Foi para São Paulo, vender seguros. Quando nos encontrávamos, comentava sempre estar passando pela melhor fase de sua vida, podendo conviver com a família, acompanhar o desenvolvimento dos filhos e abandonar a sina de mestre de obras.
Chegou a
ser convidado para entrar na política. A Arena, partido oficial,
queria faze-lo senador pelo Rio de Janeiro. Não aceitou.
Ao se abrir a sucessão de Geisel, ainda militarizada, o foco iluminou singular personagem, o único que conseguiu exercer funções de importância em todos os governos revolucionários. Chefe da Agência Central do SNI e comandante da Polícia Militar de São Paulo no governo Castello Branco, chefe do Estado-Maior do III Exército no governo Costa e Silva, chefe do Gabinete Militar no governo Garrastazú Médici e chefe do SNI no governo Ernesto Geisel. Um gênio ou um equilibrista?
Tanto faz, porque íntimo amigo de Mário Andreazza. Era o João. João Baptista de Oliveira Figueiredo, último general-presidente do ciclo militar. Indicado por Geisel, começou a montar seu ministério compondo uma síntese das administrações anteriores. Golbery do Couto e Silva continuaria no Gabinete Civil, Mário David Andreazza, costista, seria ministro do Interior, como Mário Henrique Simonsen, castelista, no Planejamento, e Delfim Netto, costista e medicista, primeiro na Agricultura, depois na chefia da equipe econômica. Um mágico, aquele Figueiredo, que surpreendeu o Brasil e o mundo levantando a censura à imprensa, promovendo a anistia política, acabando com o bipartidarismo forçado e permitindo a eleição de governadores oposicionistas como Leonel Brizola, no Rio, Miguel Arraes, em Pernambuco, Franco Montoro, em São Paulo, Tancredo Neves, em Minas, e muitos outros. Depois, a partir do escândalo do Riocentro e da tentativa da extrema direita de impedir a abertura, entregou-se. Teve enfartos, desinteressou-se do poder. Não quis, ou não pode, levar seus mais íntimos assessores ao banco dos réus, como o chefe do SNI, Octávio Medeiros, e o ministro do Exército, Walter Pires.
Só para concluir: Figueiredo e Andreazza eram contemporâneos dos tempos de cadete, amigos do peito. Iniciou-se um novo período para o ex-ministro dos Transportes, tornado gestor de projetos maiores, responsáveis pela integração nacional. Os tempos já eram bicudos, o milagre brasileiro sucumbira há muito, afogado nas sucessivas crises do petróleo. Mesmo assim, na Península dos Ministros, em Brasília, onde se concentravam as mansões dos principais integrantes do governo, era comum assistir um deles, às seis e meia da manhã, de tenis e calções largos atravessar a rua e entrar direto no quarto de dormir do outro, que apenas despertava. Andreazza sentava-se na beira da cama de Delfim Netto e, cheio de papéis, impunha a assinatura do todo-poderoso csar da economia, liberando montes de verbas para todo o tipo de iniciativas do ministério do Interior. Para os demais companheiros do ministério, eram a “dupla dinâmica”, Batman e Robin, que faziam o sucesso material da administração Figueiredo. Mesmo assim, quando lembrado o nome de Andreazza para presidente da República, o presidente titubeou. Aceitou a pressão de Paulo Maluf, afinal feito candidato do partido oficial. Ganhou Tancredo Neves, é claro, pois a nação estava farta de governos militares. Andreazza retirou-se do palco, foi ganhar a vida mas logo depois adoeceu. Seus amigos precisaram cotizar-se para levar seu corpo de um hospital em São Paulo para ser sepultado no Rio. Evidência maior de sua honestidade não houve. (final)
Ao se abrir a sucessão de Geisel, ainda militarizada, o foco iluminou singular personagem, o único que conseguiu exercer funções de importância em todos os governos revolucionários. Chefe da Agência Central do SNI e comandante da Polícia Militar de São Paulo no governo Castello Branco, chefe do Estado-Maior do III Exército no governo Costa e Silva, chefe do Gabinete Militar no governo Garrastazú Médici e chefe do SNI no governo Ernesto Geisel. Um gênio ou um equilibrista?
Tanto faz, porque íntimo amigo de Mário Andreazza. Era o João. João Baptista de Oliveira Figueiredo, último general-presidente do ciclo militar. Indicado por Geisel, começou a montar seu ministério compondo uma síntese das administrações anteriores. Golbery do Couto e Silva continuaria no Gabinete Civil, Mário David Andreazza, costista, seria ministro do Interior, como Mário Henrique Simonsen, castelista, no Planejamento, e Delfim Netto, costista e medicista, primeiro na Agricultura, depois na chefia da equipe econômica. Um mágico, aquele Figueiredo, que surpreendeu o Brasil e o mundo levantando a censura à imprensa, promovendo a anistia política, acabando com o bipartidarismo forçado e permitindo a eleição de governadores oposicionistas como Leonel Brizola, no Rio, Miguel Arraes, em Pernambuco, Franco Montoro, em São Paulo, Tancredo Neves, em Minas, e muitos outros. Depois, a partir do escândalo do Riocentro e da tentativa da extrema direita de impedir a abertura, entregou-se. Teve enfartos, desinteressou-se do poder. Não quis, ou não pode, levar seus mais íntimos assessores ao banco dos réus, como o chefe do SNI, Octávio Medeiros, e o ministro do Exército, Walter Pires.
Só para concluir: Figueiredo e Andreazza eram contemporâneos dos tempos de cadete, amigos do peito. Iniciou-se um novo período para o ex-ministro dos Transportes, tornado gestor de projetos maiores, responsáveis pela integração nacional. Os tempos já eram bicudos, o milagre brasileiro sucumbira há muito, afogado nas sucessivas crises do petróleo. Mesmo assim, na Península dos Ministros, em Brasília, onde se concentravam as mansões dos principais integrantes do governo, era comum assistir um deles, às seis e meia da manhã, de tenis e calções largos atravessar a rua e entrar direto no quarto de dormir do outro, que apenas despertava. Andreazza sentava-se na beira da cama de Delfim Netto e, cheio de papéis, impunha a assinatura do todo-poderoso csar da economia, liberando montes de verbas para todo o tipo de iniciativas do ministério do Interior. Para os demais companheiros do ministério, eram a “dupla dinâmica”, Batman e Robin, que faziam o sucesso material da administração Figueiredo. Mesmo assim, quando lembrado o nome de Andreazza para presidente da República, o presidente titubeou. Aceitou a pressão de Paulo Maluf, afinal feito candidato do partido oficial. Ganhou Tancredo Neves, é claro, pois a nação estava farta de governos militares. Andreazza retirou-se do palco, foi ganhar a vida mas logo depois adoeceu. Seus amigos precisaram cotizar-se para levar seu corpo de um hospital em São Paulo para ser sepultado no Rio. Evidência maior de sua honestidade não houve. (final)
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